quinta-feira, 4 de março de 2010

Superpotências: ao assalto da África


No século XXI, África constitui-se definitivamente como fornecedor de recursos naturais das duas superpotências. A China não impõe contrapartidas políticas, enquanto os Estados Unidos não são indiferentes aos problemas de segurança e às emergências humanitárias. A não ingerência de Pequim é mais sedutora para os Estados africanos.

Com a ascensão da China ao estatuto de superpotência, o novo milénio apresenta-se como um mundo bipolar tendo como centros Washington e Pequim. A nova realidade é visível especialmente no relacionamento do G2, a China e Estados Unidos, com África. Os países do continente menos desenvolvido passaram a contar com as opções das vias norte-americana ou chinesa. Pequim oferece a harmonia ao proclamar a ajuda ao desenvolvimento sem pré-condições e ao prezar a paz, desenvolvimento e comércio e ignorar modelos políticos ou económicos. O gigante asiático não está nos negócios com África para exportar modelos de desenvolvimento ou projectos políticos, em oposição aos Estados Unidos, que pretendem contrapartidas como mais democracia, liberdade, direitos humanos e o domínio da lei.
O Governo de Hu Jintao pretende apenas fazer negócios em paz sob a sua concepção do mundo em que o crescimento é o objectivo absoluto. Uma visão estratégica assente na convicção de que a economia resolverá a maioria dos problemas de direitos e desenvolvimento humano do continente. Esta ênfase na harmonia abona a favor de Pequim, tanto mais que rivaliza com a estratégia de compensações norte-americana. «Se o consenso de Washington é ideologicamente intervencionista, o emergente consenso de Pequim parece ideologicamente agnóstico», observa Roger Cohen, colunista do diário «The New York Times».
Enquanto a Administração norte-americana condiciona a ajuda a África à democracia e combate à corrupção, a China faz acordos energéticos sem pré-condições como o estabelecido no FOCAC, o fórum de cooperação China-África. Os países africanos têm agora uma superpotência alternativa e podem desvalorizar não só os Estados Unidos, como o G8, grupo dos países mais industrializados, e as ONG de ajuda ao desenvolvimento, muito preocupadas com a boa governabilidade e os direitos humanos.

Carregar fardos

Ao fazer diminuir a influência norte-americana, a abordagem chinesa tem como consequência a ajuda a presidentes ditadores, ainda que os Chineses usem discretamente o seu novo poder, como se verificou nas eleições presidenciais de 2008 na Zâmbia, onde a China fez importantes investimentos na mineração e processamento de cobre. Quando Michael Sata, candidato da oposição, denunciou as condições de trabalho oferecidas pela China aos trabalhadores, Pequim deixou bem claro que a Zâmbia sairia prejudicada se Michael Sata vencesse. O eleito viria a ser Rupiah Banda, do partido no poder. «Uma superpotência retraída é um paradoxo. A harmonia pode ser a meta, mas as divergências fazem parte do fardo global que qualquer superpotência terá de carregar», esclarece o colunista Roger Cohen.
No conflito que devasta o Darfur (Sudão) desde 2003 e já provocou 200 mil mortos e dois milhões de deslocados, só em 2007 a China aceitou participar na UNAMID, a força de manutenção da paz das Nações Unidas e União Africana. Fornecedora de armas ao país, em troca de facilidades na compra da maior parte da sua produção petrolífera, a China era um dos principais aliados do presidente sudanês, Omar al-Bechir, que se opunha ao destacamento de 20 mil capacetes azuis para a região.
A China é também criticada por vender armas a governos africanos que figuram na lista de desrespeito pelos direitos humanos dos países ocidentais. Jendaye Frazer acredita que «à medida que investir e celebrar mais contratos, a China sentir-se-á tentada a promover o primado da lei», disse a responsável do escritório para África do Departamento de Estado norte-americano. Os Estados Unidos estão agora a encorajar a China a apoiar a EITI, a iniciativa de transparência para a indústria extractiva em África.
Em Agosto, a secretária de Estado norte-americana fez um périplo por sete países da África para fazer frente à influência da China no continente. A viagem de Hillary Clinton aconteceu três semanas depois de o presidente norte-americano, Barack Obama, ter visitado o Gana e dito aos líderes africanos para agirem de forma mais responsável, alertando que, para receber ajuda ocidental, é preciso haver boa governabilidade.
O director-executivo do Institute for Global Dialogue, uma organização independente sul-africana, admite que «o compromisso da China com a África não está exactamente de acordo com as expectativas ocidentais», afirma Garth lePere. Os princípios nos quais se baseia a política chinesa são resultado da teoria do ex-presidente Jiang Zemin (1993 a 2003), que privilegia os benefícios mútuos, desenvolvimento comuns e a não interferência nos assuntos internos.
Por sua vez, o embaixador norte-americano no Jibuti, James Swann, diz que os Estados Unidos não vêem «o envolvimento de alguns países em África como algo que necessariamente exclui outros». Contudo, não deixa de apelar a que a China respeite as «normas internacionais». O CSIS, centro de estudos estratégicos internacionais, conclui que a «ofensiva chinesa em África poderá beneficiar o continente de um modo construtivo e fazer aumentar o estatuto de África em termos geopolíticos».

Má fama

O petróleo é a fonte de energia dos compromissos do G2 com África. Pequim gasta milhares de milhões de dólares para assegurar direitos de exploração de petróleo na Nigéria, Sudão e Angola. Também assinou acordos de exploração com a RD Congo e Etiópia. África representa 25 por cento das importações de petróleo feitas pela China, que tem a intenção de aumentá-las para diversificar os seus fornecedores.
Em 2005, o continente africano forneceu aos Estados Unidos 18 por cento das suas importações de petróleo, mais do que os Estados Unidos importam actualmente do Médio Oriente. Na próxima década, prevê Brett Schaefer, da Heritage Foundation, «as exportações africanas de petróleo duplicarão» e as importações norte-americanas de petróleo africano alcançarão os 25 por cento. Cada vez mais, a instabilidade e as crises humanas como a do Darfur estão a obter maior atenção dos Estados Unidos, «primeiro por preocupações humanitárias, mas também por causa de interesses estratégicos», comprova Brett Schaefer.
A companhia petrolífera nacional chinesa está particularmente activa no Sudão, onde construiu um oleoduto para o mar Vermelho e uma refinaria em Cartum. Também controla a maior parte de um campo de petróleo no Darfur. Além do Sudão, a China está activa em Angola, onde concedeu uma ajuda de 2 mil milhões de dólares para garantir direitos de exploração petrolífera. Na Zâmbia, a China investiu 170 milhões de dólares no sector da extracção de cobre. Pequim está ainda a investir em actividades na área do cobalto e do cobre na RD Congo, a explorar madeira no Gabão e na Libéria e profundamente envolvida no Zimbabué.
Esta competição por recursos está a levar a China a uma abordagem muito exploradora de África. «Os Chineses investem na exploração dos recursos e em troca apoiam os mais autoritários, chauvinistas e maus políticos», denuncia Radha Kumar, directora do Nelson Mandela Centre for Peace and Conflict Resolution. A investigadora indiana assinala que «ainda não há suficiente força nos partidos políticos das democracias africanas para resistirem ou negociarem contra uma abordagem expropriadora de África». Radha Kumar insiste que «os recursos não são tão importantes que justifiquem a má fama», sentencia.

Harmonia vs. Democracia

Em 2008, o comércio entre a China e os países africanos atingiu a soma recorde de 107 mil milhões de dólares, um aumento de 45 por cento em relação ao ano anterior. Ao contrário do que acontece com os Estados Unidos, país com que a China tem elevados excedentes comerciais, no caso de África, o saldo da balança comercial é favorável aos países africanos. O regime comunista tornou-se o maior exportador para o continente africano, com uma quota de quase 10 por cento do mercado, em 2007, de acordo com o US Department of Commerce. Os Estados Unidos continuam em segundo plano, com 5 por cento das exportações. Em 2008, o volume de negócios de África com a China atingiu 104 mil milhões de dólares e com os Estados Unidos 267 mil milhões de dólares, segundo o diário económico «Finantial Times».
Para suportar estas relações comerciais, Pequim e a União Africana institucionalizaram o diálogo estratégico no FOCAC, fórum que em 2008 reuniu 48 dos 53 países do continente em Adis-Abeba (Etiópia). Na altura, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, visitou o Egipto, Gana, RD Congo, Angola, África do Sul, Tanzânia e Uganda. Pouco antes, o presidente, Hu Jintao, tinha visitado Marrocos, Nigéria e Quénia.
Esta intensa actividade diplomática leva a superpotência asiática a colaborar com alguns regimes ditatoriais de África. A Amnistia Internacional acusa Pequim de incentivar conflitos e violações de direitos humanos ao vender armas para regimes repressivos como os do Sudão e Zimbabué em troca de petróleo e minério. O vice-primeiro-ministro chinês, He Yafei, defende ser «tendencioso ou equivoco dizer que os vínculos de Pequim com África são apenas por causa do petróleo», esclarecendo que «a intenção da cooperação sino-africana é o benefício recíproco». Como parte das contrapartidas, a China oferece assistência económica e técnica, empréstimos sem juros e créditos preferenciais. Empresas chinesas participam na construção de estradas, hospitais, obras sanitárias, palácios e recintos desportivos. Cerca de nove centenas de projectos de investimento estão a ser financiados com dinheiro chinês.
O mundo bipolar sino-americano é uma nova era de disputa entre capitalismo democrático e capitalismo de partido único, uma luta entre a liberdade pluripartidária de Washington e o crescimento sem pré-condições mais sedutor de Pequim.
Os Estados Unidos desejam cooperar com a China na ajuda ao desenvolvimento de África. Em 2008, a responsável pelo Bureau of African Affairs admitiu a existência de oportunidades para que Washington e Pequim cooperem com o continente na construção de infra-estruturas, na agricultura e saúde. Segundo Jendaye Frazer, a ajuda coordenada das duas superpotências poderia evitar a duplicação de projectos e conduzir a uma maior racionalidade e eficiência de utilização dos recursos. Mas, para que essa colaboração aconteça, sublinhou Jendaye Frazer, a China terá de ser mais transparente na concessão de financiamentos e nos critérios de alívio da dívida aos países africanos. «Não pretendemos ver as dívidas serem canceladas, por um lado, e, por outro, a China levar os países africanos a um endividamento insustentável», disse.
Em Novembro, o presidente americano, Barack Obama, fará sua primeira visita presidencial à China para estreitar laços entre os Estados Unidos e o país asiático. Segundo o embaixador norte-americano em Pequim, Jon Huntsaman, «nunca houve um período mais importante para que os Estados Unidos e a China se unam e descubram os seus interesses em comum». África é um dos mais valiosos.



Carlos Reis, Além Mar, Novembro 2009

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sudão 365 – Activistas em todo o mundo exigem mudanças


A campanha Sudão 365 foi lançada a 9 de Janeiro de 2010, uma vez que após 365 dias dessa data deverá ser realizado um referendo que determinará o futuro do Sudão. A população do Sul do Sudão irá votar para decidir se deseja continuar a fazer parte de um Sudão unido ou prefere formar um país independente.

O próximo ano trará sérios riscos para os Direitos Humanos, com os continuados abusos aos Direitos civis e políticos e um aumento dos ataques a cidadãos. As eleições de Abril de 2010 e o referendo em Janeiro de 2011 representam preocupantes focos de violência.

Em 2009, mais de 2.500 pessoas foram assassinadas no Sul do Sudão e mais de 350.000 foram desalojadas. No Darfur, na sequência de um conflito que já vitimou centenas de milhares de civis, os ataques contra a população continuam e milhões sofrem diariamente nos campos de refugiados. É necessária uma acção internacional urgente que vise proteger os Direitos Humanos.

A Amnistia Internacional uniu-se à campanha Sudão 365 para coordenar, com diversas organizações, um apelo à comunidade internacional para que esta reforce o seu envolvimento no Sudão. Trabalhando como uma coligação a nossa voz soará mais alto e seremos capazes de alcançar uma maior audiência.

A campanha foi lançada com uma “batida pela paz” (beat for peace) e é liderada por bateristas mundialmente famosos incluindo: Phil Selway, dos Radiohead; Stewart Copeland, dos The Police; Nick Mason, dos Pink Floyd; Jonny Quinn, dos Snow Patrol; Caroline Corr, Richard Jupp, Elbow, Mohammed Mounir; celebridade do Médio Oriente e Mustapha Tettey Addy, que não tocava bateria desde 1970. A batida foi escutada por activistas de todo o mundo, do Mali a Belfast, do Cairo a Washington DC, de Oslo a Nairobi.

A campanha apela a uma acção global coordenada para prevenir novas crises no Sudão. À medida que o ano avançar, apelaremos para que sejam realizadas acções específicas para garantir a protecção dos Direitos Humanos no Sudão. Durante Abril, a iniciativa Sudão 365 coordenará um Dia de Acção Global. Esta iniciativa começará por fazer exigências específicas sobre como deverá ser a acção global coordenada.

Sasha Jesperson
Campanha do Sudão – Amnesty International

terça-feira, 2 de março de 2010

II Sínodo africano: quando a igreja «faz política»


A situação em que se encontra o continente africano desafia a missão cristã a desenvolver uma sua práxis de transformação social. A evangelização da África, feita a partir da Europa durante o século XIX, foi expressão do empenho dos católicos europeus no campo social. Um empenho, o do apostolado social, que o presente sínodo está chamado a relançar valorizando os leigos e as mulheres, em especial.

De 5 a 25 do mês de Outubro de 2009, celebrou-se em Roma o II Sínodo Africano sob o tema: «A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz». Os participantes iniciaram as suas reflexões a partir do Documento de Trabalho (Instrumentum Laboris) entregue ao episcopado africano por Bento XVI em Yaoundé (Camarões), a 19 de Março, durante a sua primeira viagem à África.

Pontos importantes

Nos primeiros dois capítulos do Documento de Trabalho, há duas temáticas que considero importante sublinhar. Primeiro, a necessidade que o mundo aprenda a viver uma «coexistência planetária», porque o pluralismo das raças, das religiões, das etnias e das classes sociais não é um fenómeno limitado à África, mas presente em todas as cidades ocidentais. Segundo, a urgência de reconhecer a «subjectividade africana» com vista a uma nova reorganização da ordem mundial: um continente com mil milhões de pessoas (e 200 milhões de filhos e filhas espalhados na diáspora negra), com imensos recursos, muitos dos quais indispensáveis ao desenvolvimento do mundo inteiro, não pode continuar a ser totalmente ignorado, sob pena de uma crescente desestabilização, destinada a gerar sempre novas vagas de migrações e emergências humanitárias de difícil gestão.
As religiões e as Igrejas – em particular a Igreja Católica – podem dar um contributo específico quer à construção da «subjectividade africana», indispensável para a solução dos muitos problemas internos ao continente, quer ao nascimento de um «protagonismo negro» no contexto de uma coexistência planetária.
Neste texto pretendo comentar brevemente o terceiro e quarto capítulos do documento de trabalho, que apresentam a Igreja como «actor social» e detentora da uma sua «práxis de transformação em campo social».

Sacramento de salvação

Parafraseando João Paulo II, o texto diz: «A Igreja torna-se sinal visível e instrumento de justiça, de paz e de reconciliação operadas por Cristo em benefício do género humano, quando ela vive em coerência com a sua identidade de “sal da terra” e “luz do mundo”» (89). No bem e no mal, a Igreja sempre foi um «actor social». No bem, quando a sua atenção aos pobres e o seu empenho em defender a dignidade de cada pessoa humana – imagem de Deus – foram sentidos e vividos como dois dos sinais mais característicos da sua fé em Jesus Cristo. No mal, quando a comunidade eclesial se deixou manipular pelos poderes políticos e se tornou serva deste ou daquele regime e defensora do status quo. O verdadeiro rosto da Igreja «sacramento de salvação» deve ser procurado sobretudo na vida dos santos, isto é, daqueles que acolheram os carismas-dons do Espírito e produziram frutos de justiça, paz e reconciliação.
A onda de evangelização da África, verificada no século XIX, coincidiu com o início, na Europa, de um empenho sistemático em campo social por parte dos católicos, em resposta às problemáticas surgidas com as grandes revoluções oitocentistas, sobretudo a industrial. (A reflexão teológica por parte do magistério chegou mais tarde, em Maio de 1891, com a promulgação da encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, com a qual, pela primeira vez, a Igreja Católica tomava posição em relação às questões sociais.) Todos os grandes evangelizadores que naquele tempo dirigiram a sua atenção (e as forças dos institutos por eles fundados) para a África estavam animados por um espírito marcadamente social. E é por isso que, ainda hoje, a ligação entre anúncio evangélico, vida de fé e transformação social é muito mais sentida neste continente que em outros. Na Ásia e nas Américas a evangelização tinha tido lugar nos séculos XVI e XVII, quando a relação entre vida de fé e problemas sociais era vivida geralmente a nível de «caridade» e de «esmola», e a missão era de natureza quase exclusivamente religiosa. Também em África os missionários entraram com a mensagem religiosa em primeiro plano, mas no seu modo de trabalhar a atenção pelo social constituía uma parte integrante da evangelização, sobretudo por se terem deparado com problemas de carácter social e cultural de enormes dimensões (escravatura e tráfico esclavagista, condições miseráveis em que a mulher se encontrava, doenças devastadoras…) e terem sentido a urgente necessidade de uma organização social mais em linha com a acelerada e inevitável modernidade.

No feminino

O chamado «apostolado social» em África teve um salto de qualidade com a chegada e a presença das mulheres entre o pessoal missionário. Tratava-se de uma novidade inteiramente nova. Antes de 1800, as missionárias estavam totalmente ausentes da África; em 1914, pelo contrário, eram a maioria. Na mulher missionária a opção da Igreja pelos pobres atingiu níveis nunca antes conseguidos. A sua amorosa atenção aos últimos (como os portadores de deficiências físicas e psíquicas), o seu incansável cuidado dos doentes nos hospitais e nos dispensários, a sua proximidade aos doentes de lepra (símbolo dos excluídos e dos rejeitados), o seu empenho na escola faziam dela um autêntico «agente de mudança social». A importância da sua presença não desvaneceu na África de hoje. E o Instrumentum laboris podia e deveria ter reconhecido mais explicitamente o seu papel no processo de reconciliação, na luta pela justiça e paz no continente, mesmo em espaços dominados ou dependentes da hierarquia eclesial ou dos sacerdotes.
Também a «regeneração da África» propugnada por São Daniel Comboni no seu Plano de 1864 implicava uma clara dimensão social, para além de religiosa. «A missão está ao serviço da fé e da civilização». O Instrumentum laboris faz uso de categorias certamente mais bíblicas («a justiça do Reino»; «a paz do Reino»; «Reino e justiça de Deus»; «igreja, sacramento de reconciliação»…), mas estas correm o risco de perder o carácter concreto e o relevo que elas têm na Bíblia, se destituídas da sua dimensão social.

Actor social

Considero importantíssimo que o Instrumentum laboris sublinhe várias vezes que a Igreja é chamada a trabalhar no contexto social e a assumir as suas responsabilidades diante das transformações em curso na sociedade africana. Frequentemente, de facto, também em África como no resto do mundo, políticos e analistas da coisa pública não escondem um certo ressentimento quando vêem as comunidades cristãs e religiosas intervir de maneira directa na análise e na solução de problemas sociais. Acusam a Igreja de «fazer política», em vez de ficar tranquila no seu mundo espiritual e dentro das paredes da sacristia. Tentam inclusive corroborar a sua tese citando um versículo do Evangelho: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21), pensando com isso justificar uma total separação entre religioso, social e político.
Não pode haver dúvidas: da forma como Jesus Cristo associou de maneira indivisível a fé em Deus ao amor do próximo, a ponto de fazer do segundo a «prova» do primeiro, a atenção ao pobre e ao marginalizado e o empenho em eliminar as causas da pobreza e da marginalização tornaram-se características essenciais do cristianismo.
Perante os problemas sociais, a Igreja não pode fugir. Pode hoje parecer surpreendente ler na Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo (Gaudim et Spes), aprovada em Dezembro de 1965 pelo Concílio Vaticano II, uma afirmação como a seguinte: «A missão própria confiada por Cristo à sua Igreja, não é de ordem política, económica ou social: o fim que lhe propôs é, com efeito, de ordem religiosa» (42). E apesar de logo a seguir precisar que «justamente desta mesma missão religiosa derivam encargos, luz e energia que podem servir para o estabelecimento e consolidação da comunidade humana segundo a lei divina» (ib.). Deve-se, por isso, ter presente que aquela afirmação é uma citação quase literal de uma passagem do Discurso de Pio XII a cultores de história e de arte, no longínquo Março de 1956. Desde então registou-se uma notável evolução, até mesmo no magistério eclesial, acerca das estreitas relações existentes entre social, cultural, político e religioso. Recentes estudos de antropologia social e de teologia bíblica demonstram que estes âmbitos da vida humana não podem nunca ser totalmente separados.
É de esperar, portanto, que o sínodo africano saiba elaborar uma definição de Igreja como «actor social» de pleno direito. Só assim a fé poderá mostrar que tem um relevo também histórico: precisamente aquele relevo que Cristo, o Deus incarnado, quis que tivesse. Isso não significa propor e defender regimes teocráticos. Significa, pelo contrário, «relatar» ao mundo as interessantes experiências que as Igrejas do continente têm tido – e continuam a ter – nos mais diversos contextos sociais, muitas vezes em colaboração com outras religiões (Islão, Hinduísmo…). O sínodo pode revelar-se uma ocasião propícia para uma profunda reflexão sobre estas experiências, também em vista de um enriquecimento de todo o tratado de eclesiologia, especialmente em matéria de relações Igreja-mundo.

Justiça, paz e... leigos

A criação do Conselho Pontifício da Justiça e da Paz e a difusão das comissões «Justiça e paz» em todas as conferências episcopais nacionais e em cada uma das dioceses e paróquias são passos positivos neste sentido. O Instrumentum laboris fala longamente delas, em particular no capítulo IV.
Aquilo sobre o que o sínodo se deverá interrogar (disposto também a rever inteiramente a questão) é a competência daqueles que, em geral, são propostos para estas comissões e a incidência que eles têm sobre o resto da pastoral eclesial. É hora de os bispos africanos (e não só) aceitarem de bom grado o reiterado convite expresso nos documentos oficiais da Igreja (veja-se o decreto sobre o apostolado dos leigos, Apostolicam Actuositatem, do Vaticano II, e a exortação apostólica pós-sinodal sobre a vocação e missão dos leigos na igreja e no mundo, Christifideles laici, de João Paulo II) a reconhecer que nestas comissões o papel proeminente compete aos leigos. A ordenação sacerdotal ou episcopal não garante a adequada competência exigida pelo apostolado social, que implica contínuos contactos com a sociedade civil e com a comunidade internacional. Tal competência é determinada pela comunidade civil e política, e a Igreja deve adaptar-se a ela, se quiser ser um interlocutor credível. Corre-se o risco do ridículo quando se pretende que a «competência» prescrita pelo direito canónico para a ordenação sacerdotal se possa considerar garantia suficiente para qualquer tipo de presença eclesial no mundo. A este propósito, não se pode deixar de dar o próprio assentimento ao seguinte trecho do Instrumentum laboris: «Um desenvolvimento da liderança dos leigos entre as Igrejas dos vários continentes favoreceria o intercâmbio de peritos nos diversos âmbitos que concernem a paz e a justiça, e poderiam colaborar nas instâncias internacionais pela causa da justiça e da paz em nome da sua fé comum em Jesus, Príncipe da Paz» (122).

Magistério social

Os muitos documentos dos papas, do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz, das conferências episcopais e de cada um dos bispos sobre os problemas sociais constituem já uma doutrina vastíssima. Doutrina que, no entanto, não chega a incidir sobre a vida dos cristãos e da sociedade. O motivo é fácil de indicar: este ensinamento, embora definido por João Paulo II «parte essencial do anúncio evangélico hoje», é ignorado na catequese ordinária; mesmo textos fundamentais como o Catecismo da Igreja Católica não lhe fazem uma alusão explícita; para não falar das homilias dominicais pronunciadas nas nossas igrejas, que fazem deste ensinamento «o ensinamento da Igreja mais bem guardado».
Há depois o problema da metodologia a seguir, quando se pretendem analisar os problemas sociais. Na carta apostólica Octagesima Adveniens, publicada em 1971 por ocasião do 80.º aniversário da Rerum Novarum, nas vésperas do importante sínodo dos bispos sobre a justiça no mundo, o Papa Paulo VI dera orientações muito precisas sobre como um magistério social dos bispos deve ser desenvolvido. Mas também este texto permaneceu letra morta. Um verdadeiro magistério social dos bispos exigiria, por sua vez, um contacto permanente com as instituições académicas e com os leigos católicos envolvidos no mundo político, económico e social; contactos que ainda não existem.
O Instrumentum laboris menciona os vários organismos envolvidos naquela que deveria ser uma práxis de transformação social cristã, como também os actores deste «ministério». É dado grande destaque aos actores hierárquicos, dando quase a impressão de que a hierarquia seja o primeiro protagonista, quando, de facto, são os leigos e os religiosos. Neste texto, é descrito brevemente aquilo que fazem, mas não se avalia o seu impacto real e não se arriscam pistas novas. Se o documento final do sínodo se assemelhar ao Instrumentum laboris será uma manta de citações de documentos passados, todos escritos no século XX ou até antes, dirigido a um mundo e a uma África que vivem um hoje totalmente diferente de ontem. E terá sido uma ocasião perdida.


Francesco Pierli, Além-Mar, Outubro 2009